Por que os baianos têm a fama de preguiçosos?

5/28/20254 min read

Por que os baianos têm a fama de preguiçosos?

A fama de que os baianos são preguiçosos é um dos estereótipos mais conhecidos e difundidos no Brasil. Piadas, memes e comentários sobre a suposta "preguiça baiana" são comuns no cotidiano brasileiro e, de tanto serem repetidos, acabaram se naturalizando no imaginário popular. Mas de onde surgiu essa ideia? Quais são as origens históricas desse estereótipo? E, mais importante, essa fama corresponde à realidade?

As raízes históricas de um estereótipo

A caracterização do baiano como preguiçoso tem raízes profundas na história brasileira e remonta ao período escravocrata. Segundo pesquisas acadêmicas, a elite portuguesa, ao observar escravos negros trabalhando de modo lento e desanimado (o que era, na verdade, uma forma de resistência à exploração), começou a cunhar esse falso estereótipo.

De acordo com a antropóloga Elisete Zanlorenzi, que defendeu a tese de doutorado "O Mito da Preguiça Baiana" na Universidade de São Paulo (USP), a caracterização do baiano como preguiçoso ganhou força durante as grandes migrações de nordestinos para o sul do país. Os recém-chegados, genericamente chamados de "baianos" (independentemente de seu estado de origem), muitas vezes sem emprego, alojavam-se em cortiços ou favelas.

"Estas condições contribuíram para que o termo baiano fosse associado a outros como sujo, desorganizado, não produtivo e, finalmente, preguiçoso", explica Elisete em sua pesquisa. Fora da Bahia, o termo "baiano", segundo o Dicionário Houaiss, chegou a significar tolo, ignorante e fanfarrão, referindo-se a trabalhadores desqualificados oriundos de todos os estados do Nordeste.

A realidade por trás do mito

Contrariando o estereótipo, estudos e estatísticas mostram que os baianos trabalham tanto quanto os brasileiros de outros estados. Em sua tese, Elisete Zanlorenzi apresenta dados surpreendentes: uma empresa com sede no Pólo Petroquímico de Camaçari, a 41 quilômetros de Salvador, registrou menos faltas de funcionários durante o Carnaval de 1994 do que sua filial em São Paulo.

Outro dado revelador: no final dos anos 1980, entre as pessoas ocupadas na Região Metropolitana de Salvador, 50,4% trabalhavam mais de 48 horas semanais e 35,8% de 38 a 47 horas por semana. Esses números desmentem categoricamente a ideia de que os baianos trabalham menos que os demais brasileiros.

Fatores que reforçaram o estereótipo, Diversos fatores contribuíram para a perpetuação desse mito ao longo do tempo:

A indústria do turismo

A partir dos anos 1960, Salvador passou por grandes transformações urbanas com o objetivo de incrementar o turismo. Nesse processo, descobriu-se que o mito da preguiça tinha um apelo delicioso para os forasteiros. A imagem de uma terra onde "a festa nunca termina e ninguém se preocupa com o relógio" tornou-se um atrativo turístico, reforçando o estereótipo.

O discurso de artistas baianos

Curiosamente, alguns artistas baianos famosos como Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia incorporaram e até brincaram com essa imagem. Segundo Elisete Zanlorenzi, "eles chegavam no eixo Rio-São Paulo afirmando serem preguiçosos. Era como dizer: eu não sou daqui".

Gilberto Gil, entrevistado para a pesquisa, explicou: "A preguiça é uma especiaria que a Bahia oferece ao Brasil. A preguiça produz de forma inusitada benefícios inimagináveis. Ela vence os obstáculos pela capacidade de contorná-los e não de atravessá-los diretamente".

No entanto, esses mesmos artistas que brincavam com o estereótipo eram (e são) extremamente trabalhadores e produtivos. Dorival Caymmi, por exemplo, que cultivava a fama de preguiçoso, na realidade "sempre acordou cedo e, mesmo quando trabalhava à noite, fazia questão de sentar-se à mesa do café da manhã com os filhos", segundo sua neta e biógrafa, Stella Caymmi.

Uma questão de preconceito e xenofobia

O professor e escritor Erivan Santana, em artigo publicado no site Tirabanha, destaca que o estereótipo do baiano preguiçoso é mais um entre tantos outros que acabam se instalando e sendo aceitos com certa naturalidade no contexto histórico e social brasileiro.

"Depreciar os imigrantes nordestinos como preguiçosos era uma forma de excluí-los", afirma Elisete Zanlorenzi. Ela aponta dois grandes motores do preconceito: o descaso do governo com a capacitação dessa força de trabalho e a intolerância dos imigrantes europeus, que não queriam ser equiparados aos brasileiros pobres com quem disputavam o mercado de trabalho e o espaço urbano.

Uma diferente concepção de tempo

Um aspecto interessante abordado nas pesquisas é a diferente concepção de tempo que existe na cultura baiana. Embora as relações formais sejam pautadas pelo relógio, as relações informais seguem um tempo mais maleável.

"Muitas pessoas em Salvador não usam relógio", observa Elisete. "Esse fato poderia ser justificado pelo baixo poder aquisitivo da população, mas a questão vai além desse aspecto, porque não é um bem que custe caro. Se fosse imprescindível, o relógio certamente seria mais usado."

Entre um encontro e outro, observa a tese, pode ocorrer um terceiro, e as pessoas que marcaram o encontro sabem que a rigidez dos horários está exposta ao imprevisto. "O que a mentalidade utilitária e rígida concebe como atraso, na visão baiana aparece como uma possibilidade de ocorrência", afirma a antropóloga.

Conclusão: desmistificando o estereótipo

O estereótipo do baiano preguiçoso, como vimos, não encontra respaldo na realidade. Trata-se de uma construção histórica e social, alimentada por preconceitos, pela indústria do turismo e, curiosamente, pelo próprio discurso de alguns artistas baianos que, de forma irônica, incorporaram essa imagem.

Na verdade, os baianos trabalham tanto quanto os brasileiros de outros estados, mas possuem uma relação diferente com o tempo e o trabalho, influenciada por suas raízes culturais africanas. Essa diferença cultural, que valoriza o equilíbrio entre trabalho e lazer, foi historicamente distorcida e transformada em um estereótipo negativo.

Desmistificar esse e outros estereótipos é fundamental para construirmos uma sociedade mais respeitosa e livre de preconceitos. Afinal, como bem lembrou o professor Erivan Santana, no Bicentenário da Independência da Bahia no Brasil, temos muitos motivos para comemorar e celebrar esta terra que nos deu heróis e heroínas como Maria Quitéria, Joana Angélica e Maria Felipa, além do verdadeiro protagonista da história baiana: seu povo trabalhador e criativo.